Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos: as ruínas de pedra abraçadas por uma gameleira.
Iniciada há séculos e nunca concluída, a igreja de pedra de Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma (MG), é patrimônio tombado e ficou famosa pela gameleira que cresce onde deveria estar a torre.
No norte de Minas Gerais, perto do encontro do Rio das Velhas com o Rio São Francisco, uma construção de pedra chama a atenção de quem chega ao distrito de Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma. É a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, também conhecida como Igreja de Pedras. Ela nunca foi concluída e hoje divide o espaço com uma enorme gameleira, cujas raízes envolvem parte das paredes. O resultado é uma das imagens mais marcantes do patrimônio histórico mineiro.
Uma obra que atravessou séculos
Segundo a Prefeitura de Várzea da Palma, a construção começou no século XVII e nunca foi terminada. A origem exata ainda é cercada de dúvidas. Alguns relatos atribuem a obra a padres jesuítas ligados às missões de navegação pelo São Francisco. Há registro, de 1755, de capelas dedicadas ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos na região.
Viajantes estrangeiros também deixaram testemunhos. Na década de 1820, o naturalista austríaco Johann Emanuel Pohl descreveu uma igreja de pedra inacabada no local. Em 1867, o explorador britânico Richard Burton passou por Barra do Guaicuí e anotou que a entrada sul da igreja não tinha cobertura.

Ruínas da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Barra do Guaicuí (MG), com a gameleira sobre as paredes de pedra. Foto: Local Guides Nível 9: Lugares & Atividades.
Por que a igreja nunca foi terminada?
Não há uma resposta definitiva, e duas explicações são as mais citadas. A primeira diz que os trabalhadores teriam morrido de malária, doença comum na região ribeirinha. A segunda aponta que a obra foi interrompida ao se perceber que a igreja ficava a cerca de 10 metros do leito do Rio das Velhas e estaria sujeita a inundações nas cheias. Nenhuma das versões foi confirmada por documentos.
Pedra, cal e uma gameleira
A igreja foi erguida em alvenaria de pedra e cal. Ainda é possível ver pilastras, púlpitos de pedra e vãos de portas e janelas. As paredes ficaram sem telhado, e a entrada principal é voltada para o sul.
O elemento mais conhecido, porém, não foi planejado pelos construtores. No ponto onde deveria estar a torre, cresceu uma grande gameleira. Suas raízes descem pelas paredes e se misturam às pedras, numa convivência entre arquitetura e natureza que atrai visitantes e fotógrafos. Segundo o site de patrimônio ipatrimônio, a árvore recebe manutenção periódica.
Patrimônio protegido
As ruínas são tombadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), pelo Decreto nº 24.324, de 22 de março de 1985. O município de Várzea da Palma também protegeu o bem, pelo Decreto nº 56/98, de 13 de maio de 1998.
A conservação é um desafio permanente. Em 2015, reportagem do jornal Estado de Minas registrou nomes e símbolos riscados nas paredes internas. Intervenções mais recentes da prefeitura, segundo o ipatrimônio, incluíram instalação elétrica e trabalhos de consolidação aprovados pelo Iepha.
O sertão de Guimarães Rosa
Barra do Guaicuí tem lugar na literatura brasileira. A região inspirou João Guimarães Rosa, que a citou como "Guararavacã do Guaicuí" em Grande Sertão: Veredas, de 1956. O distrito tem cerca de 4 mil moradores e uma comunidade tradicional de pescadores artesanais.
Como visitar
Barra do Guaicuí fica a cerca de 370 km de Belo Horizonte, no distrito de Várzea da Palma. A igreja está a aproximadamente 800 metros da confluência do Rio das Velhas com o Rio São Francisco, e vale estender o passeio até o encontro dos rios. O local é aberto e pode ser visto a qualquer hora do dia. Por ser patrimônio tombado, o visitante não deve riscar, escalar ou retirar pedras das paredes.
Vá no fim da tarde, quando a luz dourada realça a cor das pedras e as raízes da gameleira, como na foto deste artigo. Aproveite para ir até o encontro do Rio das Velhas com o São Francisco. Leve água, chapéu e protetor solar, porque o calor no norte de Minas é forte na maior parte do ano
Um patrimônio entre a história e a natureza
A Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos é um retrato do sertão mineiro: uma obra interrompida, cercada de lendas e aos poucos incorporada pela paisagem. Visitá-la é uma forma de conhecer um capítulo pouco lembrado da ocupação do interior do Brasil, às margens de dois dos rios mais importantes do país.
Dica do Local Guide: Vá no fim da tarde, quando a luz dourada realça a cor das pedras e as raízes da gameleira, como na foto deste artigo. Aproveite para ir até o encontro do Rio das Velhas com o São Francisco. Leve água, chapéu e protetor solar, porque o calor no norte de Minas é forte na maior parte do ano.
Onde se hospedar: A Prefeitura de Várzea da Palma lista pousadas no próprio distrito de Barra do Guaicuí, como a Pousada Entre Rios, a Pousada Pesqueiro do Guaicuí, a Pousada Portal Velho Chico, a Pousada Jama, a Pousada Getúlio e a Pousada Maciel, além do Hotel Avenida. Na sede do município, a lista inclui hotéis como o Letícia, o Arigó, o Casa Grande, o Lê Galope e o Mineiro. Os contatos estão na página de hospedagem da prefeitura. Confirme disponibilidade e condições diretamente com o estabelecimento antes de viajar.