Igrejinha Nossa Senhora de Fátima: A Primeira Igreja de Brasília
Feita para cumprir uma promessa, erguida em cerca de 100 dias e inaugurada antes da própria capital: a história da Igrejinha da 307/308 Sul, com seus azulejos de Athos Bulcão e a pintura que ficou escondida debaixo da tinta.
No meio das superquadras da Asa Sul, entre a 307 e a 308, existe uma igreja pequena que parece ter pousado ali. A laje inclinada, apoiada em três pilares, lembra o chapéu das antigas freiras. Os brasilienses a chamam simplesmente de Igrejinha. E ela é mais velha que a própria capital.
A Igrejinha Nossa Senhora de Fátima foi inaugurada em 28 de junho de 1958, quase dois anos antes de Brasília. Foi o primeiro templo de alvenaria da cidade e a primeira paróquia do Plano Piloto. Por trás dela há uma promessa, uma corrida contra o tempo e uma pintura que passou décadas escondida.
Uma promessa de primeira-dama
A igreja nasceu de um pedido de Sarah Kubitschek. A primeira-dama havia feito uma promessa a Nossa Senhora de Fátima pela cura da filha, Márcia, e Juscelino mandou construir o templo para cumpri-la. A pedra fundamental foi lançada em 26 de outubro de 1957, e a obra ficou pronta em cerca de cem dias.
O projeto é de Oscar Niemeyer, com cálculo estrutural de Joaquim Cardozo, a mesma dupla de vários edifícios da capital. A solução é simples e ousada ao mesmo tempo: uma laje triangular inclinada sobre três apoios, sem nada de rebuscado.
No dia da inauguração, a igreja não deu conta da multidão. Muitos candangos chegaram em caminhões para acompanhar a cerimônia do lado de fora.

Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, na 307/308 Sul Foto: Lugares & Atividades.
Os azulejos de Athos Bulcão
Quem passa pela Igrejinha reconhece de longe os azulejos azuis e brancos que cobrem as paredes externas. São de Athos Bulcão, o artista que espalhou azulejos por toda Brasília. Os desenhos mostram a pomba, que representa o Espírito Santo, e a estrela, ligada ao Natal. É um dos poucos painéis figurativos de Athos, que costumava trabalhar com formas abstratas.
A pintura que ficou escondida
O interior também teve arte de peso. Alfredo Volpi pintou afrescos com bandeirolas e anjos, inspirados nas quermesses. Nem todos os fiéis gostaram da modernidade, e as pinturas foram cobertas de tinta azul poucos anos depois da inauguração, ainda na década de 1960.
A história teve um segundo capítulo em 2009. Francisco Galeno, que foi aluno de Volpi, pintou novas obras no interior, com motivos da cultura popular, como carretéis, pipas e bandeirinhas. Uma forma de devolver à Igrejinha o espírito da primeira decoração.
Patrimônio protegido
A Igrejinha é tombada pelo Governo do Distrito Federal, pelo Decreto nº 6.717, de 1982. Ela também integra o conjunto da obra de Oscar Niemeyer protegido pelo Iphan e fica dentro do conjunto urbanístico de Brasília, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial.
Com o crescimento da comunidade, a paróquia ganhou um templo maior, o Santuário Nossa Senhora de Fátima, na 906 Sul. Em 1970, a imagem da padroeira saiu da Igrejinha em procissão rumo ao Santuário. A pequena igreja da 307/308, porém, continua ativa e é uma das mais procuradas da cidade, inclusive para casamentos.
Como visitar
- Onde fica: EQS 307/308 Sul, Asa Sul, Brasília (DF).
- Entrada: gratuita.
- Missas e visitação: os horários mudam conforme o calendário da paróquia. Confira no site pnsfatimabsb.com.br ou pelo telefone (61) 3242-0149.
- Respeito ao local: é uma igreja em funcionamento. Durante as celebrações, evite fotos e conversas.
Informações conferidas em outubro de 2026.
4 curiosidades sobre a Igrejinha
- Foi construída em cerca de cem dias e inaugurada em 1958, quase dois anos antes da inauguração de Brasília.
- O formato da laje, apoiada em três pilares, lembra o chapéu das antigas freiras.
- Os azulejos de Athos Bulcão com a pomba e a estrela estão entre os raros painéis figurativos do artista.
- Os afrescos originais de Alfredo Volpi foram cobertos de tinta azul na década de 1960.
Para a melhor foto da fachada, afaste-se até a calçada do outro lado e enquadre a laje inteira com os três pilares. De perto, o “chapéu de freira” não aparece.
Dicas para a visita
A Igrejinha fica numa entrequadra residencial, então dá para combinar a visita com uma caminhada pelas superquadras da Asa Sul, que mostram bem como Lucio Costa imaginou a vida na capital. O fim da tarde é um bom horário para fotos da fachada, quando a luz fica mais suave nos azulejos.
Se a ideia é ver o interior, vá fora dos horários de missa e de casamentos, que são frequentes aos sábados.
Onde se hospedar: a Asa Sul e os Setores Hoteleiros ficam a poucos minutos da Igrejinha. Dê preferência a estabelecimentos registrados no Cadastur.
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